Doenças de Inverno

Inverno, Crianças e Doenças.

As estações frias chegaram. Das mudanças bruscas de temperatura, do ar seco, de roupas de lã. E junto a tudo isso, viroses, crises de asma, infecções bacterianas. Há alguns anos não percebemos tanto nossas crianças (e também nós adultos) adoecerem e custarem a melhorar. Talvez haja uma mistura de fatores como aumento da poluição, o desequilíbrio térmico da Terra, aumento de processos alérgicos com menor resistência imunológica e aumento da resistência de vírus e bactérias. O fato é que estamos fragilizados e por vezes parecemos ter recursos escassos para combater estes males. O que fazer?

Lembramos primeiro das famosas viroses. Aquelas que, para nossa frustração, não têm uma cura medicamentosa. Aquelas que nos exigem, principalmente, paciência e cuidados básicos. Por que as viroses são autolimitadas (têm um tempo próprio de cura), mas podem, se não bem suportadas, levar a conseqüências piores?

As viroses gastrintestinais (que podem causar vômitos e/ou diarréias, dores de maneira geral, febres baixas – entre 38 e 38,5o. -, prostração, falta de apetite e secreção nos olhos), se não bem cuidadas podem levar a quadros importantes de desidratação. O que fazer? O mais essencial é administrar o soro de rehidratação oral, ou SRO, (caseiro, de posto de saúde, com ou sem sabor). Dá-se meio copo (maior ou menor o copo, de acordo com o tamanho da criança) de 15 em 15 minutos aproximadamente, independentemente de a criança estar vomitando ou com diarréia no momento, até este quadro melhorar. Se vomitar, toma novamente. A alimentação deve ser o que se aceitar (menos alimentos químicos e que possam soltar o intestino), incluindo mamadeiras, almoço, etc. Os sucos, água, gelatina, água de coco não substituem o SRO, mas são bem-vindos. As fezes não podem conter sangue; calamo (muco) é comum. Não é necessário o uso de antibióticos e o Plasil só deve ser usado em casos muito intensos e com recomendação médica. Como saber se estão hidratados? Deve ter lágrimas nos olhos, saliva (para mais na boca, xixi clarinho e abundante). Olhos fundos pele seca e muita prostração, procurem um serviço médico. O famoso rota vírus é um dos causadores mais existem vários outros agentes. Dêem analgésicos (dipirona, paracetamol) quando houver dor, mas não continuamente.

Já as viroses respiratórias devem ser cuidadas também com sintomáticos, incluindo chazinhos para dor de garganta e tosses ocasionais. Mel só pode ser dado para crianças maiores de 1 ano (risco de botulismo, doença muito séria). Usar soro fisiológico para lavar a cavidade nasal (mínimo meio conta-gotas em cada narina) é fundamental, pelo menos 4 vezes ao dia(não só à noite). Se a criança já tem alguma afecção respiratória anterior, pode-se elevar a cabeceira do berço ou cama(melhor no pé do móvel que o travesseiro). Para dormir mais confortável. Umidificar o ambiente também ajuda.

As febres (taxilar, menores ou iguais a 37,5o.), por vezes assustam bastante a família, principalmente se aparecem altas e repentinamente. Não é comum aparecerem logo nas primeiras 24 horas a causa específica destas febres (ainda mais se sintoma isolado), então, se a criança estiver relativamente bem (fora dos picos febris), é bom aguardar um tempo para ver como o quadro irá evoluir. Não dêem antitérmico contínuo e, por favor, não dêem antiinflamatórios (nimesulida, diclofenaco) que tira a febre, não trata a causa e confunde o médico. Melhor consultar mais vezes e descobrir realmente o que está acontecendo. Convulsões febris têm mais a ver com uma tendência própria da criança do que com febres altas e/ou baixas.

As crises asmáticas (também chamadas pela população por bronquite) tem sido talvez uma das mais freqüentes causas de atendimento pediátrico nesta época e devem ser bem diagnosticadas e tratadas. Além da chieira e cansaço 9falta de ar/respiração rápida), os meninos/as apresentam uma tosse características que piora à noite, é mais seca, contínua, levando até as náuseas e vômitos. Devem-se excluir como outras causas comuns da tosse as gripes, sinusites, pneumonias e alergias.

Se não tiverem medicação própria para asma, procurem um médico. Um sinal de crise forte (necessidade de rápido atendimento) é quando vemos a barriguinha, no meio do pescoço ou costelas “afundando” (movimentos rápidos). Não se desesperem, vão com calma. Saibam que asma não se trata com antialérgicos e, tecnicamente, estes xaropes para tosse que vendem em farmácias não têm função comprovada.

Quanto às infecções bacterianas (otites, amigdalites, sinusites, pneumonias) de vias respiratórias, cada uma tem suas próprias particularidades de acordo com o tipo de agente, com agressividade do mesmo e a reação da criança. Mas algumas observações devem ser ressaltadas:

Não dêem de mamar aos pequenos (incluindo leite materno e sucos) na posição deitada, propícia a maior número de otites.
Gargantas vermelhas não é indicação absoluta de antibióticos.
Os dois melhores sinais de uma infecção bacteriana bem tratada são a melhora geral do quadro e o cessar da febre em até 72 horas. Se isto não ocorrer, devem voltar ao médico.
Não dêem antibióticos por conta própria, podem e causam resistência bacteriana.
(Os antibióticos (mesma classe ou nome) devem ser administrados com intervalo mínimo de 2 meses para manter uma boa eficácia).
Um dos últimos sintomas a melhorar em pneumonias é a tosse.
Um raio-X nem sempre é suficiente (ou necessário) para diagnosticar a sinusite.

Após tantas informações, ainda existe um mundo de detalhes que fazem parte desta fase de doenças de inverno, no qual estamos inseridos. A boa notícia é que isto passa e nossos meninos, além de serem mais fortes do que parecem, estão adquirindo mais defesas contra infecções futuras. A outra boa notícia é que, com estas doses extras de necessidades, produzimos nós mesmos (em quantidades altíssimas) os mais importantes remédios para nossas crianças curarem: colo, carinho e muito amor.

Carolina O. Nery – Pediatra